Medo da reforma da Previdência faz docentes anteciparem aposentadoria Mudança prevê 60 anos de serviço para homens e mulheres

28/08/2017

O número de docentes que opta por continuar na carreira é pequeno e pode ficar ainda menor, pois o medo de que a reforma da Previdência endureça alguns critérios para obtenção do benefício já gera reflexos. No Ciep Gustavo Capanema, na Favela da Maré, a equipe pedagógica sofreu baixas. Pelo menos três professoras anteciparam a aposentadoria com medo de que as mudanças na Previdência dificulte a saída de sala de aula. Apesar de estar localizada em uma área conflagrada, com constantes interrupções de aula devido à violência, o Ciep Capanema sempre foi conhecido por manter uma equipe pedagógica fiel, mas recentemente perdeu suas professoras mais antigas.

— Elas ficaram com medo da reforma. Temiam não poder pedir a aposentadoria ou perder algum benefício e decidiram sair logo. Só uma professora com mais de 30 anos de casa decidiu permanecer — conta Gisleide Gonçalves, diretora do Ciep.

A regra atual permite um regime de tempo de contribuição e idade diferenciada por gênero para servidores públicos que exercem a docência em sala de aula. Com a mudança proposta pelo Governo, as idades são equiparadas em 60 anos e o tempo de contribuição é fixado em 25 e 30 anos para mulheres e homens, respectivamente.

Experiência em falta

A perda dos profissionais mais experientes da escola, de acordo com Gisleide, tem alguns problemas centrais. Ela conta que a vivência das professoras mais velhas era fundamental na hora de enfrentar momentos difíceis na escola.

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— Toda mudança tem um lado positivo e um negativo. A gente perde profissionais que conhecem o local, que deram aula para a maioria dos pais de alunos, e recebe um professorado novo que ainda está conhecendo a comunidade, que sabemos que é violenta. Quando tem conflito, os professores novos ficam mais nervosos. Tenho duas professoras que já estão pedindo licença pela psiquiatria. É um pessoal que ainda está descobrindo o que é trabalhar na Maré. Por outro lado, eles chegam com gás, com vontade de aceitar novas propostas — analisa Gisleide.

Segundo Suzani Ferraro, presidente da Comissão de Previdência Social da OAB-RJ , com a aprovação da reforma e sua regulamentação, o servidor levará mais tempo para conseguir um percentual correspondente a 100% da aposentadoria, o que faz com que os professores queiram aposentar enquanto as mudanças não vêm.

— Na prática, estão acabando com a aposentadoria especial de professor. Ele passa a chegar em 100% do benefício se tiver cerca de 40 anos de contribuição. É uma profissão totalmente desgastante, então é muito estressante chegar lá e ter uma aposentadoria comum.

Fonte: Jornal O Globo https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/medo-da-reforma-da-previdencia-faz-docentes-anteciparem-aposentadoria-21750981